Menopausa, sexualidade e saúde mental

A menopausa representa uma etapa normativa do desenvolvimento feminino, marcada pela cessação da função ovárica e pela diminuição progressiva dos níveis de estrogénio. Para além das alterações biológicas, esta transição envolve transformações psicológicas, relacionais e sociais que podem influenciar significativamente o bem-estar global, incluindo maior vulnerabilidade a sintomas depressivos e ansiosos, alterações na autoestima e na perceção da feminilidade, bem como mudanças na dinâmica conjugal e no papel social da mulher nesta fase do ciclo de vida (Sociedade Portuguesa de Ginecologia, 2021). A evidência científica tem vindo a demonstrar que sexualidade e saúde mental, durante a peri- e pós-menopausa, encontram-se interligadas através de mecanismos hormonais, emocionais e contextuais, apresentando associações consistentes entre disfunção sexual e perturbações do humor (Rahmani et al., 2022). O presente artigo tem como objetivo integrar contributos empíricos recentes e enquadrar a menopausa enquanto processo biopsicossocial. Alterações hormonais e vulnerabilidade psicológica A transição para a menopausa caracteriza-se por flutuações e posterior declínio estrogénico, com impacto na regulação de neurotransmissores implicados no humor, como a serotonina e a dopamina. Estas alterações podem contribuir para maior vulnerabilidade a sintomas depressivos e ansiosos, particularmente na perimenopausa. Um estudo recente identificou associações significativas entre sintomas menopáusicos e níveis elevados de ansiedade e depressão (Branquinho et al., 2025). De forma semelhante, um estudo comparativo identificou níveis significativamente mais elevados de sintomas depressivos, ansiosos e de stresse, bem como pior qualidade do sono, em mulheres menopáusicas, quando comparadas com mulheres não menopáusicas (Dourou & Sousamli, 2025). A severidade dos sintomas vasomotores, como afrontamentos e perturbações do sono, associa-se igualmente a pior funcionamento psicológico (Dourou & Sousamli, 2025). Estes dados sugerem que não é apenas o facto de a mulher se encontrar em menopausa que prediz sofrimento emocional, mas sobretudo a intensidade e o significado subjetivo dos sintomas experienciados. Sexualidade na menopausa A sexualidade constitui uma dimensão central do bem-estar feminino, embora frequentemente subavaliada na prática clínica. Segundo Kong et al. (2023), mulheres menopáusicas apresentam, em média, menores níveis de desejo, excitação, lubrificação e satisfação sexual, bem como maior dor durante a relação sexual. Estas alterações decorrem parcialmente de alterações geniturinárias associadas à diminuição estrogénica, mas fatores psicológicos, como sintomas depressivos e ansiosos (Rahmani et al., 2022; Saleh et al., 2024),revelam-se igualmente determinantes. A ansiedade de saúde, caracterizada por preocupação persistente com o estado físico e interpretação catastrófica de sinais corporais, e as atitudes face à menopausa — nomeadamente a perceção desta fase como sinal de declínio físico, perda de feminilidade ou envelhecimento indesejado — demonstraram associações significativas com o desempenho e desejo sexual (Amini et al., 2023). Neste estudo, maior ansiedade associou-se a menor desejo e maior dor sexual, enquanto atitudes mais positivas face à menopausa relacionaram-se com melhor funcionamento sexual. Estes resultados apontam para o papel mediador da interpretação cognitiva da transição. A investigação qualitativa conduzida por Renou et al. (2026) evidenciou que a experiência menopáusica varia amplamente entre mulheres e depende do contexto psicossocial e relacional. Neste estudo, a qualidade da relação conjugal influenciou a forma como as alterações sexuais foram vividas e integradas. Algumas mulheres relataram atravessar esta fase com sentimentos de solidão, o que pode intensificar o impacto emocional e sexual da transição. Relação bidirecional entre sexualidade e perturbações do humor Uma revisão da literatura identificou uma associação consistente entre disfunção sexual e perturbações do humor em mulheres peri- e pós-menopáusicas (Rahmani et al., 2022). A análise dos estudos incluídos nesta revisão da literatura sugere que sintomas depressivos e ansiosos relacionam-se com diferentes domínios da função sexual, sendo a depressão um dos fatores mais frequentemente associados à diminuição do desejo e da satisfação. Adicionalmente, um estudo recente sugeriu que sintomas ansiosos e depressivos podem mediar o impacto dos sintomas menopáusicos na função sexual (Saleh et al., 2024). Este modelo aponta para um ciclo potencialmente autorreforçador: alterações físicas conduzem a desconforto e redução do desejo, o que pode afetar a autoestima e a qualidade relacional, contribuindo para sintomas depressivos; por sua vez, o humor deprimido pode reduzir a responsividade sexual, perpetuando a dificuldade. Representações sociais e contexto cultural Para além das alterações biológicas, diversos fatores psicológicos e sociais influenciam a vivência da menopausa, incluindo o contexto relacional, as exigências da vida adulta e a presença de eventos de stresse (Rahmani et al., 2022; Renou et al., 2026). As representações sociais da menopausa exercem igualmente um impacto relevante. Contextos culturais que associam esta fase a perda de valor, envelhecimento ou declínio tendem a intensificar o sofrimento psicológico. O Consenso Nacional da Menopausa sublinha a importância de reconhecer esta fase como um processo biopsicossocial, valorizando o impacto emocional e psicológico da transição (Sociedade Portuguesa de Ginecologia, 2021). A forma como a menopausa é simbolicamente enquadrada pode influenciar a autoestima, o desejo sexual e a vivência emocional. Implicações clínicas A evidência disponível sustenta a necessidade de uma abordagem integrada na prática clínica. A presença de disfunção sexual deve motivar avaliação de sintomas depressivos e ansiosos, conforme sugerido por Rahmani et al. (2022). A intervenção psicológica pode incluir psicoeducação sobre as alterações normativas da menopausa, reestruturação de crenças relacionadas com envelhecimento e feminilidade e trabalho sobre ansiedade de saúde. A articulação interdisciplinar com ginecologia revela-se fundamental, permitindo abordar simultaneamente componentes hormonais e emocionais. A inclusão do parceiro, quando adequado, pode facilitar a adaptação relacional às mudanças sexuais, dado que a qualidade da relação conjugal se associa à forma como as alterações sexuais são experienciadas e integradas nesta fase (Renou et al., 2026). Reconhecer a variabilidade da experiência menopáusica constitui igualmente um passo essencial para prevenir sofrimento evitável. Conclusão A menopausa representa uma transição complexa que envolve interações dinâmicas entre alterações hormonais, saúde mental e sexualidade. A literatura aponta para uma relação bidirecional entre disfunção sexual e perturbações do humor, mediada por fatores psicológicos e contextuais. Reconhecer esta fase como um processo biopsicossocial, conforme preconizado em contexto nacional, permite promover uma intervenção mais integrada e sensível às necessidades das mulheres. Referências Branquinho, M., Monteiro, F. & Fonseca, A. (2025). Identifying mental health profiles among women in peri- and post-menopause using a latent profile analysis approach. Menopause. doi: 10.1097/GME.0000000000002642.
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